Quando e como eu descobri que era portador da Síndrome de Parkinson




domingo, 31 de janeiro de 2010

Exercitar é preciso

   O Mal de Parkinson é mesmo uma doença traiçoeira, compara-se à folha da bananeira: uma hora está de um lado, outra hora está do outro, ou seja, é bastante instável. A mudança do humor é uma constante. É necessária muita perseverança, dedicação, disciplina e obstinação para controlá-la.
   A doença tem variantes no seu modo de atacar. Cada paciente tem um Parkinson em particular, apesar da sua desordem neurológica e que pode dramaticamente afetar as habilidades para andar, falar, escrever e engolir. Os sintomas típicos incluem o tremor, a lentidão de movimento, enrijecimento, equilíbrio e a fadiga generalizada.
   A partir do diagnóstico, meu médico recomendou que eu frequentasse uma academia de ginástica.
   No meu caso, a lentidão no atendimento dos membros inferiores e superiores é o maior suplício. Apesar de ser portador da doença, ainda me considero um sortudo. Não tenho nenhum tremor, mas mesmo assim é necessário muito equilíbrio mental para lidar com o problema.
   Para entender melhor como ela atua no nosso organismo, saiba que a redução da dopamina - neurotransmissores que controlam os movimentos e está situada na zona negra do nosso cérebro - faz com que os movimentos passem da espontaneidade para um processo ritmado.
   Para que o leitor se situe, a doença tenta nos emborcar, nos fechar como uma concha, deixando-nos lento e com uma instabilidade postural. A bradykinesia é uma dificuldade que temos ao sentar/levantar, parecendo que há um peso enorme nos membros inferiores. Cada passo é uma tortura. Os braços ficam colados ao corpo, ou seja, eles não se movimentam com espontaneidade. O parkinsoniano tem uma aparência robótica. Torna-se necessário a reposição da dopamina, como a levadopa faz, para amenizar o problema.
   Aí é que entram os exercícios físicos, como complemento. Através de exercícios anaeróbicos, resistidos, musculação e os aeróbicos, bicicleta, esteira; programei-me para um fortalecimento muscular. O alongamento geral é de vital importância no tratamento do Parkinson, além de exercícios posturais.
   Como eu disse anteriormente, é a luta do emborca contra o desemborca. A doença mandando você se fechar e ginástica obrigando você a se abrir.
   É necessário suar a camisa. Ao mínimo, duas horas de atividades diárias. De preferência monitorado por um personal trainner. Os exercícios são aplicados de forma personalizada, em academias especializadas para portadores de necessidades especiais. Há certo preconceito para o termo “portadores de necessidades especiais”, portanto são portadores de necessidades especiais, pessoas com pressão alta, depressivos, acidentados, dentre outros.
   Apesar do estágio inicial da minha doença, eu me achava normal, porém as pessoas próximas me olhavam diferente.
   Quando eu cheguei à academia para fazer minha inscrição, a atendente me disse posteriormente, que eu estava péssimo. Mal conseguia subir os poucos degraus para adentrá-la.
   No meu primeiro dia de atividades, os colegas entreolhavam entre si, e perguntava aos professores qual era o meu problema, porém eu não me sentia tão mal assim. Alguns meses depois, eu era outra pessoa. Ereto, rápido no andar, risonho, alegre, participativo e compenetrado naquilo que me propus. Vencer esta doença. Não ter medo de enfrentá-la, encará-la de frente.
   Assistindo um documentário sobre Física Quântica: Quem Somos Nós, fiquei mais fortalecido ainda, porque é totalmente possível o paciente produzir a medicação própria na farmácia que cada um tem dentro de si. Acreditar que isto é possível é um grande avanço para postergar a progressividade da doença, enquanto a junção de medicamentos sintéticos e exercícios físicos melhoram na qualidade de vida em geral, para que haja a regressão dos sintomas e a criação de novos neurônios.
   Modéstia à parte, hoje me considero um ícone da academia. Perseverante, disciplinado, assíduo. E, assim, logo me senti rejuvenescido. Uma doença degenerativa, progressiva e sem cura, não estava sedimentada na minha mente. Em muitos momentos ao longo destes anos, me senti totalmente curado, quão grande era o grau de confiança em que me encontrava.
   Passei a fazer somente o que eu tenho prazer. Cultivar os amigos sinceros, viajar mais, enxergar coisas que eu apenas via. Sorrir, interagir mais com a minha família, trabalhar com qualidade e produtividade sem deixar que o stress ultrapasse meu limite, ler material de qualidade, pois é um belo exercício para a mente, doar parte do seu tempo em causas do outro, enfim; ser aquele que deveria ter sido. Prevenir ainda é o melhor dos remédios. Há uma célebre frase: “antes prevenir que remediar”. Sempre há tempo para prevenir.
   Quanto mais elogios eu recebo, e não são poucos, eu me esforço para aprimorar nos exercícios, no prazer de estar vivo, no poder contribuir de alguma forma para melhorar o meu mundo. Quando eu era garoto, uma vez minha mãe me disse: “Se cada um varresse a frente da sua calçada o mundo estaria limpo em um minuto”. Nunca me esqueci disto. O Parkinson me chamou a atenção para enxergar o mundo diferente.
   A academia agora é a extensão da minha casa, e meus companheiros a extensão da minha família. Realmente somos uma confraria. Reunimos-nos para jantar fora, na casa de um ou de outro, comemoramos datas festivas, que aliou os exercícios diários com o social, causando um bem- estar interessantíssimo.
   Atualmente nada está fora do meu alcance. Não há nada que uma pessoa normal faça que eu não possa fazer.
   Há uns cinco anos, saltei de paraquedas num campo específico em Campinas-SP.
   Instalei na sala de TV o Videogame Wii da Nintendo, pois os jogos interativos como tênis, boliche, boxe, golfe, dentre outros são úteis para fortalecimento cerebral. O Wii Fit Plus, acessório para o videogame, também é uma ferramenta indispensável no dia a dia, porque ajuda na flexibilidade e no equilíbrio e você pode fazer exercícios físicos em casa via computador, podendo usar dos recursos da internet para interagir com quem quiser.
   Recentemente eu fui a Bonito-MS com meus filhos e minha esposa, participando de todos os eventos tidos como radicais, como boia cross, bote em cachoeira, mergulho, tirolesa, trilha; além de dirigir meu próprio carro de Campo Grande à Goiânia. Até "estrelinha" eu aprendi. Quem não se lembra dos bons tempos de outrora?
video   Senti-me orgulhoso, pois sou um portador de Parkinson há sete anos e me sinto muito ativo, com uma qualidade de vida que eu não desfrutava antes.
   Estou feliz, de bem com a vida e tentando através de relatos, compartilhar esta minha experiência com o outro.
   Recentemente, meu neurologista, minha musicoterapeuta - terapia utilizando a música - e minha esposa, firmamos um compromisso de criar uma Associação Goiana de Parkinson, com o intuito de unir pessoas com problemas comuns, para trocarem experiências, como controlar a doença via medicamentos, exercícios físicos, dança, relacionamento social. Há um contingente muito grande de portadores que sentem vergonha de si. Detestam se mostrar para a sociedade. Há casos de rejeição do portador da doença no seio da própria família.
   Há uma Associação Brasil Parkinson que publicou um caderno, Superando LIMITES uma experiência inspiradora da sua oficina de artes, expondo obras maravilhosas de pintura em museus e locais apropriados como a Pinacoteca e o MASP – Museu de Artes de São Paulo. É um trabalho terapêutico que acabou revelando talentos. Houve uma transformação de pessoas antes tristes, acabrunhadas, solitárias, em seres felizes que conseguiram traduzir suas angústias, alegrias e seus desejos por meio de traços, formas e cores.
   Está em nossos planos participar de trabalhos voluntários com os portadores do Mal de Parkinson em nosso Estado, interagir com associações congêneres no Brasil e no mundo, com o intuito de resgatar a autoestima perdida pelo parkinsoniano.