Quando e como eu descobri que era portador da Síndrome de Parkinson




quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

As Marcas do Passado

Antes de prosseguir na reflexão dos efeitos do parkinson, eu gostaria de retroceder até à minha infância com o intuito dar traçar o pano de fundo da formação do meu caráter e da minha personalidade.
Eu acredito que cada um nasce com características diferentes, porém o ambiente onde o individuo é formado pode influir no seu futuro.
É conhecido, que numa família de muitos filhos, nenhum é parecido um com o outro, não no aspecto físico, mas nas características que formam o sujeito.
Sou primogênito de uma prole de seis irmãos, sendo cinco homens e uma mulher. Meus pais nasceram no interior de Minas Gerais, com pouca formação educacional, porém com uma bagagem de conhecimentos autodidatas impressionantes.
Lembro que minha mãe era costureira, mas não uma simples costureira na essência da palavra. Ela tinha algo mais que me chamava a atenção. Ela era uma estilista de mão cheia. Era magnífico ver como ela retratava um modelo, simplesmente copiando-o de uma revista ou vendo-o na televisão. Quando alguém levava as peças de tecidos para serem transformadas em algum feitio, aquelas minúsculas gravuras logo eram milimetricamente transformadas em moldes dentro de um esquadro totalmente lógico.
Lembro-me com bastante lucidez, que sua fama ultrapassou as fronteiras da nossa casa, depois que ela fez um curso de corte e costura com uma professora especializada.
Pouco tempo depois o discípulo suplantava o mestre, e a minha mãe passou a ser professora de corte e costura. A nossa casa, nos fundos, acabou virando uma escola, e dali minha mãe ajudava meu pai no sustento da família.
Já meu pai era outro predestinado. Alfaiate de profissão. Era reconhecido em toda a região como o melhor alfaiate, sendo seus ternos vestidos por centenas de figuras ilustres do Estado.
Lembro-me com bastante detalhe a sua trajetória, pois eu participei diretamente nesta empreitada, levando e buscando peças do vestuário feitas por calceiras selecionadas, como hoje podemos chamar de facção.
Mas ele era um estudioso, apaixonado pela mitologia grega. Tinha em nossa casa uma biblioteca com centenas de livros voltados ao assunto. Era também um explorador da etimologia, um devorador de jornais e periódicos, leitor compulsivo. Quantas vezes eu o vi caminhando rumo a nossa casa, outrora para almoçar ou no final de expediente, lendo. Quantas vezes eu o observei, lendo livros ou jornais, durante as refeições. Era rotina encontrá-lo na rua, em um bar ou em qualquer lugar, com um jornal debaixo do braço, quando não estava lendo.
Meu pai sempre mirou em mim, como uma possibilidade de ser alguém no futuro. Quando ele me avistava, indo ao seu encontro para pedir dinheiro para fazer compras ou outras necessidades, ele sempre dizia para os presentes a sua volta. Lá vem um “cara lebreia”. Acredito que o significado para ele era de uma “lebre esperta”. Assim sendo fui talhado de um menino esperto, de futuro. Com àquele a quem ele não precisaria se preocupar.
Varro minhas lembranças e não me recordo de que ele tenha me elogiado diretamente. Eu sempre era informado pelas pessoas que o ouviam. Meu pai era uma pessoa muito circunspecta, reservada, estranha, fleumática, distante além do tempo, mas era um bom pai. Era um estereótipo de pai, diferente dos pais dos meus amigos, que estavam vivendo a época.
Um fato inquestionável era quanto ao seu caráter. Além de trabalhador honesto, dedicado, formou os seus ajudantes em expert no ofício, e deu emprego a centenas de pessoas. Era uma pessoa altamente filantrópica. Procurava ajudar a quem pedisse, muitas vezes em sacrifício da própria família.
Morreu aos 44 anos atropelado no centro da cidade. Lembro-me muito bem do fatídico dia 03 de outubro de 1971. Estava terminando o ensino médio e no momento da informação de sua morte, estava sendo revelada a nota da minha prova de química.
Quero com este hiato, fazer uma ponte do ontem ao hoje para tentar descobrir, se o homem que fui ao longo desta trajetória, foi formatado para ser um vencedor, porém com possibilidade de ter carregado uma carga emocional maior do que a sua capacidade.
Sempre fui uma pessoa de resultados. Talhei a minha trajetória de vida por objetivos. No passado desenhei o meu futuro com data e hora para ser cumprido. Uma pessoa perseverante, disciplinado e focado naquilo que foi autodeterminado para acontecer e que aconteceu.
Tive muitas oportunidades de alçar vôos ainda maiores ao longo da minha carreira bancária, mas as oportunidades maiores aconteceram após ter deixado o sistema financeiro, para empreender meu próprio negócio no ramo de construção civil, que mesmo de curta duração foi plenamente exitosa.