Quando e como eu descobri que era portador da Síndrome de Parkinson




terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Um dia para ser esquecido em Nova Iorque – Um capítulo à parte.

Programamos-nos para passar o réveillon em Nova Iorque. Chegou o grande dia 25 de Dezembro. Chegamos lá na mesma hora que começava a nevar. Lindo para se ver, mas difícil de lidar com ela no dia-a-dia. Um amigo da cidade de Dambury, Connectitcut, disse que nos últimos 12 anos jamais caira tanta neve numa mesma noite.
Vamos ao que interessa, até porque, sobre a neve, a mídia divulga para o mundo todo, nos mínimos detalhes.
Minha esposa e eu, colocamos a indumentária para enfrentarmos o terror dos povos tropicais: o frio abaixo de zero. Depois de cumprirmos a jornada da manhã, resolvemos, como todo turista, subir o tal Empire State. 102 andares! Que martírio! Que suplício!
Aparentemente, todos os turistas presentes em Nova Iorque, resolveram subir a tal torre ao mesmo tempo.
E lá foi um parkinsoniano, metido a besta, para a guerra. Sinceramente, não sei se fui influenciado pela patroa ou se foi pura ingenuidade minha.
Enfim, compramos o ticket que dava direito a ver Nova Iorque de todos os ângulos.
Eu não sei onde começou o martírio. Eu e minha esposa numa fila enorme, que andava vagarosamente, mas andava.
Primeiro acontecimento. Eu me dirigi a um caixa e comprei o meu bilhete. A Vera vai para o outro e compra dois bilhetes. Três bilhetes na mão. Como desfazer de um deles? Enfim conseguimos.
Pegamos outra fila enorme e lenta e subimos até o 80° andar. Já dava para notar que a logística do empreendimento não suportava tamanho congestionamento. Elevadores pequenos e muita confusão.
Uma das piores coisas para um parkinsoniano é alimentar-se mal, fora de seu horário habitual, num país diferente. A medicação ficou toda descontrolada. O fuso horário, o ritmo para cumprir a jornada programada, que quase nunca é seguida. Enfim, eu naquela fila, com remédio vencido, comprometido pelo frio, vestimentas que limitavam meus movimentos, sem água, sem banheiro, ou seja, combalido.
O primeiro estágio da subida era mesmo o 86° andar. Porém do 80° ao 86° já foi um terror, pois o vento levantava-nos. Pensei que eu fosse uma “pipa”. Desisti. Não havia a menor condição climática, nem para permanecer ali e nem ao menos fotografar.
Tentarei ser mais direto neste trecho da subida, ou seja, do 86° ao 102°.
Para chegar neste trecho do passeio, já haviam decorridos aproximadamente duas horas e meia, porém a curiosidade de ver a grande Apple e satisfazer os desejos da minha esposa, forçavam-me a prosseguir.
Num espaço que mal cabiam 10 pessoas, havia 100. Um “empurra empurra”, falta de estrutura, tanto de contingente humano para auxiliar na organização, quanto na logística dos elevadores.
Este parkinsoniano, já combalido, permaneceu não menos que 45 minutos sem dar um passo sequer. Minhas pernas formigavam. Pensei! Vou desmaiar. Logo veio à minha cabeça! Sustente-se homem! Isto é um reality show! Se você sair vivo daqui, ganhará US$1.000.000,00. Tentei permanecer ali, espremido, sem mexer, até que avistei uma grade adiante, a alguns metros. Mas estes metros pareciam muito mais distantes. Consegui agarrá-la. Disse para mim mesmo: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”.
Imaginei que da grade e mais alguns passos havia o elevador que nos levaria o topo. Lêdo engano!
Um funcionário bradava: “Walking down, walking down...”. Não era a frase que gostaria de ouvir. Ainda havia muito que avançar para alcançar o objetivo.
Depois de vencer mais uma etapa do Reality Show, abre-se um elevador pequeno, quase uma gaiola, que não cabia 10 pessoas. Daqueles elevadores que vemos em filmes, de puxar uma grade sanfonada e fechar com uma barra de ferro.
Chegamos. Decepção! O andar cercado por grossos vidros, embaçados e evidentemente, gente demais, para um espaço pequeno.
Moral da história. Não vi nada. Acho que a minha condição naquele momento era de vencido. Por mais que acreditei no “YES, I CAN”, há limite para esta doença.
Sinceramente? Fui longe demais, literalmente. Frio abaixo de zero, roupas demais limitando meus movimentos, medicação vencida, fuso horário diferente, espremido, pisoteado e limitado, sem água, sem bathroom.
Ah! Não se esqueça! Sou portador da doença de Parkinson.
Importante dizer: o percurso da peripécia durou, aproximadamente, quatro horas.
Acreditem! Acabei sendo um estorvo nesta empreitada.
Acabei descobrindo a força, pois nunca perguntei ao meu médico. O frio não combina com Parkinson.
Parkinson emborca, frio também.
Lembram-se do capitulo “Exercitar é preciso”? Pois bem. Fiquei aproximadamente 15 dias sem me exercitar corretamente, sem alongamentos, e mais, viajando encurralado nos desconfortáveis bancos dos aviões internacionais. Não há espaço para se mexer. Um parkinsoniano viajando nestas poltronas, mais parece um pássaro muito conhecido na nossa região. O urutal.Nome científico - Nyctibius Griseus.
Minha mensagem, até para o meu maior inimigo – Não suba na torre do Empire State nestas condições.